Marcus Vinicius Figueredo de Sousa Rodrigues
Advogado – Especialista em Ciências Criminais e em Direito do Estado.
Sócio do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim)
Quando o assunto em evidencia é um crime, e, principalmente, quando este crime tem repercussão nacional pela sua barbaridade, audácia ou até mesmo por atacar personalidades ou pessoas sensíveis, como crianças e idosos, boa parte da mídia com o fim de obter informações necessárias para compreensão e motivação do ato criminoso, acaba elevando o delinqüente a um status de celebridade, herói, tornando-o uma “vítima da sociedade”.
É sabido que a Constituição Federal em seu artigo 5º assegurou a liberdade de imprensa, mas a exploração desta liberdade deve ser seguida com certa cautela. Desta forma, os suspeitos e autores de delitos ganham um surpreendente fascínio da imprensa sobre a criminalidade. Isto ficou claro nos últimos anos, onde vivenciamos uma valorização exorbitante do individuo como celebridade do crime, favorecendo em sua maior parte o próprio delinqüente e reforçando a sua liderança no meio social em que vive, mesmo que a reportagem mostre o criminoso como o mais torpe de todos os tempos.
É fato que o acontecimento de um crime que abala circunstancialmente a população, torna o sujeito ativo deste delito no dia seguinte ou até mesmo horas após a consumação da infração, um individuo famoso, pois a sua “cara” estará estampada na primeira pagina de jornais de grande circulação, como também em capas de revistas conceituadas, privilegiando única e exclusivamente o próprio criminoso, e até mesmo majorando a sua auto-estima.
É cediço que o delinqüente em sua comunidade encontra-se no topo da pirâmide social, logo, esta capa de revista ou a primeira página de um jornal, faz com que as pessoas que vivem ou militam em torno daquele território, e, em especial, as crianças, tenham esse criminoso como um super-herói em sua vida, pois é notório que o Estado é omisso nessas localidades na oferta dos direitos sociais fundamentais.
Várias situações deste fascínio midiático podem ser mostradas em inúmeros episódios da nossa história, como exemplo tem o caso de Roberto Aparecido Alves Cardoso, O Champinha, com apenas de 16 anos de idade, foi condenado pelo seqüestro e pelo assassinato do casal de namorados Felipe Caffé e Liana Friedenbach, em 2003, na Grande São Paulo. Outro caso marcante, foi a jovem, rica, bonita e universitária, Suzane von Richthofen. Esta, no dia 31 de outubro de 2002, pouco depois da meia-noite adentrou na casa, ascendeu à luz, conferiu se os pais estavam dormindo e deu carta branca ao namorado e o irmão do mesmo a praticar a barbárie contra os seus genitores, em prol da herança da família. E por fim, o caso mais emblemático, pois o país inteiro ficou chocado e revoltado, com o detalhamento do assassinato de Daniela Perez. O autor do crime, o ator Guilherme de Pádua Thomaz, por motivos de ambição, egocentrismo, megalomania, sede de poder e de sucesso, tirou a vida de uma excelente jovem profissional, adorada por uma legião de fãs, de forma brutal. Em todos esses casos supra-narrados o terrorista foi destacado pela mídia, se tornando um autentico protagonista, se destacando em inúmeras páginas de revistas, jornais de grande circulação e até mesmo tendo certos privilégios perante a justiça.
Mas felizmente, percebemos na atualidade que esta mentalidade vem sendo mudada. Vivenciamos há alguns meses o chamado “Massacre do Realengo” no Estado do Rio de Janeiro, onde várias crianças foram mortas, sem mesmo ter o direito de defesa nem de um futuro sonhado. Mas o lado positivo desta violência, se pode dizer que houve, foi à interpretação dos meios jornalísticos perante o delinqüente e o garantidor. Pois naquele momento de tensão, o verdadeiro herói, foi sargento da PM Alves, que com a sua antecipação e coragem conseguiu salvar outras dezenas de crianças, sendo assim, homenageado por várias revistas, jornais e até programas globais.
Importante ressaltar que, a violência, o medo e a insegurança, vendem muito mais do que as coisas basilares na vida de um ser humano. Contudo, a população não tolera mais tanta crueldade. As pessoas não querem comprar jornais e revistas, nem mesmo assistir programas televisivos para ver situação a que estamos submetidos, mas sim, para apreciar coisas boas que a vida pode nos proporcionar. Portanto, graças à intervenção de profissionais sérios, que são a maioria, percebemos que existe uma luz ao final do túnel para mudar o nosso Brasil.
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